Cinco poemas de Rodrigo M Leite

(...)




as águas estão baixando
promessas de praias ribeirinhas
carnavais dentro da época do fogo
abutres campeiam em círculos
vigiam preguiçosas cadeiras de espaguete

ao meio-dia
ermos caminhos
o gosto do arraial quieto





nenhuma sereia serena


à margem do rio terra vermelha noite açafrão
aceito o convite proposto pelo céu
um caminho de constelações acesas meu corpo
vaga o lume das estrelas
uma embarcação à deriva
à procura dos mistérios envoltos nas cercanias do capinzal
a noite adensa provocações e convites
embalo das águas vai-mas-vem das canoas
cricrilar dos grilos
baldio  entre brumas
namoro os aspectos fugidios
assombros vaporosos atrás de arbustos
assobios de seres estranhos imaginários
ninfas vulneráveis zanzando névoa eu selvagem
córrego de signo esfomeado pela quinta
onde galhas ferem meu curso
semiárido de quebradiça
pele agreste



           

sunday parnaíba beach


curumins bronzeados equilibrados nas beiradas
penetram boias vaginas de pneus,
desaparecem determinado instante
o rio cristalina veeiros de saudade
devir de águas passadas
náufragos de canoas na ilha do amor
caminhões vermelho-trovão abocanham na paisagem
outra ponte na divisa do piauí com o maranhão
os garotos bronzeados reaparecem,
trigueiros
como que mais graves após um rito primitivo

piaus fritos festejos com limão
surf-music embalos do coração


     


vermelha vila vagarosa


entre cacarejos dos galos vizinhos
a dança metálica das folhas secas no átrio
alto-falante uma caminhonete anuncia
ESTREIA DO CAMPEONATO DE FUTEBOL MUNICIPAL
aderimos ao musgo,
lesmas de uma antiga parede esverdeada que somos
no quintal da casa empestada de netos
frutas airosas, inocentes desejos

tudo bem
um pouco mais de velocidade
meninos afoitos ao rio
redes com renda de crochê balouçando nos alpendres
movimentos despropositados da argila manhosa,
dos aguapés chapados de erva

em um aluvião onírico
todos executamos o ritmo das águas





piauí sul experiências ¹


Quando escrevo cerrado digo metafórica camada regional
com salgadas imagens carregadas enferrujados
materiais retorcidos sob nuvens de contorno grave
assombros vaporosos que invadem terreiros
percorrem hectares de grãos
desaparecem desapercebidos montados numa égua cega no cio
o destino sempre paralém

Quando escrevo cerrado lembro mangas verdes o cheiro de sal
insinuações crepusculares entre os ásperos caibros com felpas
transfiguras no teatro de paredes amarelas e cerâmicas antigas
sombraspectos sensibilizados pelo meu ser moreno
sépias da infância souvenir's do fundo do rio

Quando escrevo cerrado leio velhos encostados na antiga parede da casa dos temperos
sabores moídos condimentos ingredientes da tarde mistério
quando fumo e cachaça são tragadas com suor
quando a agitação das folhas mortas secas saudades de casa
quando laranjas no átrio despencam sorridentes
sobrados sem brilho falso

Quando escrevo cerrado vejo insetos de areia duros no quarto dos aracnídeos abandonados
bulbasauro um sapo que alimento ancião designado para fechar o dia
amortecer desejos dos corpos inclinados na rede
reacender vaga-lumes
incitar ninfas no terreno vadio

[1] ao poeta rubervam du nascimento

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